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sexta-feira, 22 de junho de 2007

Branca de Neve

Ali estava ela, perfeita, no seu sono secular. Imóvel, pálida, linda. Tudo nela era perfeito, o cabelo arranjado (não sei que cabeleireiro consegue fazer um penteado daqueles que dure tanto tempo, mas que permanecia inalterado permanecia. Devia ser laca tipo cimento), as unhas pintadas de beije puro (verniz de boa qualidade), o seu vestido branco imaculado, que apenas lhe descobria as mãos e o rosto (graças a Deus, que aquela mulher devia séculos à depilação). E ela estava ali, inerte, tudo nela parecia calma e paz. Mas só por fora. Por dentro tudo estava em turbilhão. As entranhas remexiam-se, o coração bombava, o sangue fervia. Tudo nela era vontade, uma vontade imensa de se voltar a mexer, de voltar a andar, de voltar a sorrir, vontade de voltar a viver.
Ali estava ele, elegante, encorpado, astuto, corajoso. Estava à procura da sua princesa em apuros. Estava à procura do seu momento de heroísmo, de ser um salvador. Olhar confiante e sorriso no rosto, montado no seu corcel robusto e brilhante (feito Virgem Maria no dia da aparição). Tudo nele era vontade, uma vontade imensa de encontrar o amor da sua vida, a mulher que permaneceria com ele até ao fim, vontade de acabar ali a sua história de príncipe para poder finalmente ser Rei.
Fez o destino, que finalmente se encontrassem junto daquele leito de vidro, onde ela jazia, hirta (que nem uma barra de ferro). Ele desmontou, olhou para ela deslumbrado. O seu coração disparou, correu, voou. Tinha chegado o momento, era hora. Tinha terminado a sua busca. Aproximou-se devagar. Não queria, de maneira nenhuma, que aquele momento fosse menos que perfeito. Encostou-se à sua cama de vidro e sentiu o aroma do seu perfume. E que perfume. Ele estava nervoso, tremia. Ela era linda. Era muito mais do que em todos os seus sonhos. Ele sabia exactamente o que tinha de fazer.
Debruçou-se sobre ela, acariciou-lhe a face. A sua pele era a mais macia de todas. Os seus olhos encheram-se de lágrimas. Naquele momento teve a certeza que ia ser feliz. Aproximou os seus lábios, e com amor, encostou-os aos dela.
Naquele momento o sol brilhou com mais força, ouviram-se cantos e músicas de todas as direcções. Ela levitou. De dentro do seu corpo saíram feixes de luzes de todas as cores. Foi um espectáculo eclético, lindo, perfeito. Ela voltou ao lugar. O príncipe olhou para ela ansioso. Ela abriu os olhos. E que olhos. Eram lindos, cor de avelã, inundados de perfeição, como o todo. Ele ficou imóvel à espera, ainda meio incrédulo. Ela pediu-lhe ajuda para se levantar. Ele logo se prontificou pegando nela ao colo. Ela endireitou-se e pôs-se de pé. Olhou para ele com uma ternura infinita. Beijou-lhe a face, agradeceu e foi-se embora.

1 comentário:

x4x_it disse...

Ficção e realidade! Este texto é, sem dúvida, dos textos mais engraçados/tristes que li nos últimos tempos. O que vale é que escreveste coisas como: "graças a Deus, que aquela mulher devia séculos à depilação", que me deixaram louco de tanto rir.
O final é real, no que se pode pensar/sentir/fluir. Olha, pelo menos agradeceu...
Mas sim, quando sentes que é aquela determinada pessoa e não vês a resposta esperada é muito, mas mesmo muito, mau... Quebra-te o coração.
Agora, existem também as situações completamente inesperadas onde se sente que, realmente, o "coração disparou, correu, voou" e nos deixa no mundo da lua, sem sabermos muito bem como reagir, resta-nos um sorriso lindo e um olhar de cãozinho babado! =P
Um grande abraço!

[acho que este foi o meu maior comment de todo o sempre! LOL]